O conceito de pecado foi criado pelo catolicismo e tem a ver com preceitos, isto é, as normas comportamentais preconizadas para que alguém se torne merecedor do Paraíso. No hebraico e no grego, pecar significa errar, no sentido de desviar-se de um padrão. Quer dizer que antes do catolicismo não havia pecado? Sim, havia, mas o julgamento era mais social do que Divino.

O cânone católico e, por extensão, no cristianismo, pecar é aquilo que nos afasta da regra salvadora de nossa alma imortal. E, para deixar claro, estabeleceu-se uma relação de sete pecados que seriam capitais, isto é, aqueles que seriam definitivamente graves. Vamos rememorar: gula, avareza, inveja, luxúria, preguiça, soberba e ira. Como se pode ver, todos estão relacionados a sentimentos naturais no ser humano, mas que geram comportamentos condenáveis quando exercidos de maneira exagerada. Assim, gostar de comer, de alimentar-se bem, é perfeitamente aceitável, a menos que a pessoa faça disso uma obsessão, transformando a corriqueira fome na maligna gula. Assim é com todos os outros, inclusive a inveja – o pecado que ninguém confessa – que seria uma derivação egoísta e cobiçosa da admiração.

Sentimentos como medo, coragem, tristeza e arrependimento não são considerados pecados. Aliás, o arrependimento é considerado um sentimento redentor dos pecados, inclusive os capitais, desde que o pecador não reincida no erro. Mesmo não religiosos e até ateus reconhecem o valor da condenação do comportamento pecaminoso a fim de tornar a convivência social admissível e mais harmoniosa.

É fato que todos nós, por razões circunstanciais, cometemos um ou vários – senão todos – pecados capitais ao longo de nossas vidas. Para alguns, a percepção do erro os conduzem rapidamente ao bom senso, reconhecendo a inconveniência do comportamento considerado pecaminoso. Outros, porém, tornam-se pecadores contumazes, a ponto de se justificarem numa espécie de armadilha mental, persistindo indefinidamente em pecado capital.

O espelho disso são os avaros que, pelo apego egoísta e excessivo aos bens matérias, se aproveitam de posições políticas para amealhar cada vez mais bens e recursos, movidos tanto pela oportunidade quanto pela ganância, colocando em segundo plano os interesses da coletividade e trabalhando, diuturnamente, na obtenção de mais benesses e favorecimentos pessoais ou ao grupo ao qual pertencem.

Temos exemplos eloquentes disso na classe política brasileira que não apenas se locupleta dos cargos que ocupam como pouco se importa com o bem da sociedade, pelo que deveria zelar como prioritário dever de ofício. O pior é que, ao longo das ultimas décadas, a impressão que tal comportamento nos passa é que o voto que a população conferiu a tais políticos teve, como única finalidade, transformá-los numa espécie de casta de aristocratas que se julgam merecedores dos butins dos escandalosos assaltos ao erário e acima das Leis.

É bem verdade que a indignação da sociedade teve resposta em ações como a Lava Jato. As condenações de notórios corruptos, decorrentes de investigações e processos jurídicos, atuaram como uma espécie de bálsamo para a população. Finalmente – pensamos nós – a impunidade terá fim. Ledo engano nosso, pois chegamos a imaginar que tais corruptos iriam aceitar o ônus de seus pecados sem reagir. Não contávamos que tais avaros tivessem aliados poderosos entre os soberbos. E quem são esses?

O pecado capital da soberba é uma mistura de orgulho e vaidade, associada à arrogância daqueles que se julgam em suposta superioridade moral, social, intelectual e de comportamento, assumindo atitudes prepotentes e de desprezo com relação à sociedade. Esses se consideram supremos e, tal como os políticos com os quais guardam estreitas relações de identidade e compadrio, atuam descaradamente em favor dos corruptos, livrando-os das justas punições das quais são merecedores. O pior é que esses “supremos” encontram-se legalmente em posição de assim agir, após terem sido nomeados e aprovados exatamente pelos políticos que deveriam punir.

Tal tipo de comportamento pecaminoso, já que legalmente amparado, desperta nos cidadãos cumpridores de seus deveres e defensores de valores morais e éticos, um terrível sentimento e um desejo profundo de também cometer um pecado capital, deixando-se mover pela ira. A ira é o intenso e descontrolado sentimento de raiva, ódio e rancor que pode gerar sentimentos de vingança. A ira torna a pessoa furiosa e descontrolada com o desejo de destruir aquilo que a fez deixar-se dominar por esse sentimento.

Então, caros leitores, seriam sensatos os avarentos e soberbos se percebessem que estão estendendo demais os limites da paciência do povo. Não deveriam esquecer que a Constituição que juraram defender determina, em seu parágrafo único de seu Art. 1º que diz: “todo poder emana do povo”. Portanto, não é prudente que continuem cutucando esse leão – o povo – ainda que acreditem que a vara que possuem seja longa, pois a qualquer momento, esse leão pode acreditar que não é.

Laerte A. Ferraz, para Vida Destra, 25/10/2019.

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Advogado, jornalista e publicitário. Escritor, articulista, palestrante e consultor empresarial em Marketing e Comunicação
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