Não sem algum esforço, terminei a leitura da biografia de Vladimir Ilich Ulyanov (verdadeiro nome de Lênin) escrita pelo historiador inglês Robert Service. Service foi um dos primeiros historiadores a ter acesso aos arquivos do Partido Comunista soviético após a derrocada do comunismo, pelo que é nítida sua preocupação em relatar de forma minuciosa fatos até então ocultados ou desconhecidos, e compor uma face mais humana e menos mítica desse personagem ainda tão icônico. Essa preocupação com minúcias e o estilo bastante acadêmico do autor tornaram a leitura um pouco árida, especialmente até 1917, quando os fatos se aceleram e adquirem uma dimensão maior – muito maior – que as intrigas internas dos pequenos grupos marxistas de que Lênin fazia parte ou com quem mantinha contato.

Vladimir era um dos cinco filhos de uma família bem situada, com título nobiliárquico e razoável posição na estrutura governamental czarista. Não eram milionários, mas gozavam de confortável situação financeira e social. Seu pai faleceu precocemente. Sem a orientação e freios paternos, o irmão mais velho, Alexander, radicalizou-se politicamente na faculdade e participou de um grupo que tentou assassinar o czar Alexandre III, sendo, por isso, condenado à morte.

A morte do irmão mais velho, não muito depois da morte do pai, radicalizou de vez Vladimir, que, a partir de então, colocou a política como sua única preocupação, passando a participar de pequenos grupos marxistas em que, pouco a pouco, foi adquirindo posição de proeminência.

Interessante notar como os bolcheviques eram pouquíssimos, mas mesmo assim conseguiram tomar o poder, em meio ao caos político da Rússia com a derrocada do regime czarista e o desastre na 1ª Guerra Mundial. Aproveitaram-se da enorme pulverização política entre vários grupos e correntes e, com a determinação férrea de Lênin e uma certa sorte, conseguiram ascender ao poder, inicialmente em uma ampla coligação que incluía liberais, socialistas e outras correntes de esquerda, para depois, em outubro de 1917, fazerem um segundo golpe e assumirem o poder de forma definitiva. Que fique a lição de nunca subestimar a sede de poder e a ousadia dos leninistas.

Uma vez no poder, Lênin jamais perdeu sua obsessão pela implantação do comunismo. Para tanto, perseguiu implacavelmente toda a oposição política aos bolcheviques, bem como classes e grupos sociais que não se encaixassem na cartilha marxista, inclusive a igreja ortodoxa, pequenos produtores rurais (camponeses) e quem mais fosse necessário, inclusive mediante execuções em massa. O terrorismo de estado era aceito e incentivado, e uma polícia política (a Checa) foi criada.

Lênin não permitia nenhuma liberdade de expressão fora dos círculos mais altos do poder, exercendo severo controle da imprensa e das informações. A mentira era um instrumento de poder.

Quando de sua morte as principais estruturas do estado totalitário soviético já estavam praticamente montadas, sendo depois “aperfeiçoadas” por Stalin.

Stalin (que não era o sucessor preferido por Lênin) instituiu um verdadeiro culto à personalidade do “fundador” da URSS. Seu corpo foi embalsamado e até hoje está exposto à visitação pública num mausoléu na Praça Vermelha, em Moscou. A belíssima cidade de Petrogrado (antes denominada São Petersburgo, denominação a que voltou após a derrocada do regime comunista), antiga capital czarista, foi rebatizada como Leningrado.

Lênin certamente situa-se entre os grandes personagens do século XX e até mesmo da história. Sua influência no mundo foi e continua sendo enorme. O crescimento do Partido Nacional Socialista (em alemão, National Sozialistische Partei – conhecido pela sigla Nazi) na Alemanha foi em grande parte uma resposta nacionalista ao socialismo internacionalista soviético. No auge da Guerra Fria, pode-se dizer que metade do mundo era governado por regimes de inspiração marxista-leninista. E, após a derrocada da União Soviética, a China assumiu o papel de guardiã do legado totalitário leninista – ainda que sua atual ascensão deva-se muito a uma introdução de elementos capitalistas em sua economia, jamais abdicou do regime político comunista de partido único criado por Lênin, que até hoje vigora -, sendo hoje a segunda maior potência mundial e com influência global crescente e poderosa. E é comum ainda ver-se comunistas (declarados ou não) reverenciando a memória de Lênin, por todo o mundo.

Apesar da realidade brutal e totalitária que foi a prática leninista, muitos ainda associam seu nome à utopia comunista. A China é o novo veículo de imposição dessa doutrina pelo mundo. Caso tenha sucesso, o marxismo-leninismo voltará triunfante, para desespero dos que amam a liberdade. Essa guerra está em andamento nesse exato minuto em que essas linhas são escritas e lidas. Ao melhor estilo chinês (Sun Tze – A Arte da Guerra), uma guerra sem tiros, em que se busca a vitória na fraqueza e na divisão do inimigo.

 

Ricardo Peake Braga, para Vida Destra, 18/5/2.020.

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Nunes
Admin
2 anos atrás

Excelente artigo! Como sempre falamos, o preço da liberdade é a eterna vigilância.

BananenseNãoPraticante
BananenseNãoPraticante
2 anos atrás

Excelente artigo! Vou destacar o seguinte trecho: “…conseguiram ascender ao poder, inicialmente em uma ampla coligação que incluía liberais, socialistas e outras correntes de esquerda, para depois, em outubro de 1917, fazerem um segundo golpe e assumirem o poder de forma definitiva.” Liberais, socialistas e outras correntes de esquerda unidos a favor de Lênin! Notaram algum erro? Não há qualquer erro! Conhecendo a fundo a verdadeira divisão da política dos últimos quatro séculos é perfeitamente compreensível que estejam (ainda hoje) unidos! Devemos ter consciência que a oposição política que realmente existe é conservadores X progressistas. E não direita X esquerda!… Read more »