“I have nothing to offer but blood, toil, tears and sweat.”

Winston Churchill

Quando surgiram as primeiras notícias a respeito de um novo vírus que estava fazendo vítimas na China e alguns analistas – incluindo este que vos escreve – começaram a extrapolar para suas redes de contato os possíveis problemas em caso de disseminação global, muita gente achou absurdo ou engraçado. Em março, a epidemia vinda do país comunista finalmente nos atingiu; dizer que não estávamos preparados para a enfrentar simplesmente repete uma frase pronta repetida milhões de vezes por pessoas dos mais diversos perfis. Mas o que de fato significa não estar preparado para enfrentar uma crise? Quem não estava preparado e por quê? Encontrar as raízes da nossa inépcia é fundamental para que estejamos preparados no futuro.

Neste momento, vivemos um evento ímpar para pelo menos três gerações: enfrentar uma crise de grandes dimensões e ter que lidar com situações como cerceamento da liberdade e tomada de decisões que podem envolver vidas. A verdade é que, após a Segunda Guerra Mundial, ninguém nos países ocidentais que não esteve diretamente envolvido no campo político-militar precisou lidar com isso. Vivemos uma era próspera e pacífica, uma era que propicia paz, comodidade e nos torna fracos. Também não sabemos lidar com a morte, a nossa e dos nossos; muitos pais escondem este fato de seus filhos até a idade adulta e se negam a aceitar que perecerão; outros se agarram à vida desesperadamente porque acreditam que não haverá nada além disso. Não sendo nada além de um macaco evoluído em um pequeno planeta de uma galáxia qualquer no universo, nos resta temer tudo e viver o melhor possível.

Para completar, a sociedade ocidental moderna que emergiu da última grande guerra definitivamente trocou os três pilares que a tornaram grande – moral judaico-cristã, direito romano e filosofia grega – por três diretrizes que fazem a cabeça das novas gerações: hedonismo, materialismo e individualismo. O novo cidadão ocidental não passa de um nefelibata que sonha em mudar o mundo porque foi criado imerso até o couro cabeludo no pensamento revolucionário, mas que no fim é um cavalo com antolhos em frente ao espelho vendo e admirando a própria imagem e incapaz de abrir mão de seu conforto para lutar por nada que no belo discurso defende. Este cidadão que abandonou os ideais, mas que julga possuir as qualidades de quem já os realizou (ler O abandono dos ideais, de Olavo de Carvalho), é o epítome do homem moderno: egoísta, fraco, covarde e estúpido.

Se compararmos este epítome com os homens que libertaram a Europa das crias de Stalin, sentiremos um tapa na cara que nos deixará pasmos e revoltados: quatro gerações atrás, homens jovens foram lutar – e, em muitos casos, morrer – por uma terra que não conheciam simplesmente porque eram movidos por um ideal verdadeiro, sem terem perspectiva de qualquer ganho pessoal e sem a certeza de que sobreviveriam. Imbuídos na fé e nos mais altos sentimentos, deram a vida e enfrentaram não apenas baionetas, fuzis, .50s, morteiros, granadas, aviões e tanques, mas doenças como tifo, malária, tuberculose e tétano. Sabiam também que tinham grande chance de morrer se se ferissem, afinal mal havia antibióticos e anti-inflamatórios. Epidemias de gripe eram comuns e costumavam matar os jovens que estavam fracos ou os que tinham idade avançada. Mesmo diante de tantas dificuldades e riscos, prosseguiram firmes e nada os fez parar em sua marcha para a eternidade.

Retornemos agora ao momento atual em que estamos trancados em casa com medo de um vírus que tem taxa de letalidade próxima de zero em indivíduos jovens e saudáveis. Por que estão todos isolados e não apenas quem tem risco de morte? Estaríamos passando por um imenso balão de ensaio dos globalistas? Quase ninguém pergunta ou questiona. Ficamos confinados com nossas famílias desarmados e inermes, esperando que agentes estatais mal pagos provejam  o que somos incapazes de prover como chefes delas. Mais alguns dias trancados e muitos de nós serão incapazes mesmo de fornecer o pão aos nossos filhos, esposas e demais dependentes. E assistiremos tudo de nossas janelas com a televisão ligada em algum canal de mídia que tem como missão nos causar mais pânico ao invés de nos deixar informado, afinal a audiência garante seus empregos. Quando a pandemia passar, deixando alguns milhares de mortos, seremos milhões de desempregados sem rumo em um país quebrado com instabilidade econômica, política e elevadas taxas de violência (sim, é possível piorar) e suicídio. Mesmo os que mantiverem o sustento da família terão que lidar com todos os problemas sociais gerados de forma direta ou indireta.

Faremos tudo isto com prudência e sofisticação (assistam Brasileirinhos!), dentro do bom senso e do moralismo moderno que utilizam parte dos três pilares originais de nossa civilização não como guia, mas como martelo que fustiga quem ousa pensar diferente. O ideal coletivo original – se sacrificar para o bem comum e maior – foi substituído por um valor piegas que conta os corpos imediatos que uma decisão difícil pode gerar, mas finge não antever os corpos futuros que se empilharão caso homens de verdade não as tomem (se a crise econômica de 2008 fez meio milhão de vítimas no mundo, o que esta poderá fazer?). Não somos homens destemidos resguardando nossas famílias, mas meninos passivos e obedientes; obediência originada muito mais na covardia do que na intenção.

O artigo sobre o coronavírus (Retorno à Idade Média?) escrito pelo grande escritor Mario Vargas Llosa foi criticado por falar verdades sobre a China (também acredito que nada disto aconteceria se o país fosse democrático), mas seu cerne é muito mais interessante e perene do que a verdade sobre o regime mais assassino do planeta: o medo da morte nos acompanhará sempre como uma sombra. Não importa quanta energia os transhumanistas despenderão, sempre teremos como destino comum a morte; a diferença está em como se lida com a velha senhora. Os homens do front contra Hitler foram para Europa enfrentar tudo e todos porque almejavam a eternidade e eram movidos por um ideal maior do que eles; já os meninos de hoje ficarão trancados em casa porque são tíbios ainda quando têm fé e já não possuem nenhum ideal ou valor moral maior, restando a eles apenas os desejos primitivos e o instinto de salvar as próprias peles.

 

Vieira, para Vida Destra, 25/03/2020

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Gogol
2 meses atrás

Muito, muito, muito bom! A falta de raciocínio, a falta de capacidade analítica de cada questão, a imensa preguiça de pensar e o medo, ou melhor, o pânico de tomar suas próprias decisões fazem de uma considerável parte da população presas fáceis, facílimas, dos inescrupulosos do mundo todo. O engraçado é ver como o homem atual é fraco, mas se acha o tal, sua alma é toda pura arrogância. Como o almofadinha do Doria, por exemplo, que está fazendo todo jogo sujo ao seu alcance para, conforme passa por aquela cabeça oca, ser o próximo presidente. A florzinha do campo… Read more »

Moisés
Moisés
2 meses atrás

Perfeito!!!