Primeira parte do artigo: https://vidadestra.org/tempo-de-quarentena-uma-palavra-de-esperanca-parte-i/


 

Há coisas muito mais interessantes, e gratificantes, a fazer nesta quarentena do que, por exemplo, ficar falando mal da sua sogra, que você não visita há anos. Ou do seu chefe nervoso, que se irrita facilmente e grita com você por nada. Ou também do seu colega de trabalho resmungão e preguiçoso que só quer se escorar em você. Ou ainda de outras pessoas com quem você não se dá bem, por um motivo ou por outro. É muito mais benéfico, por exemplo, pesquisar e obter conhecimento sobre assuntos variados e importantes, incluindo História, Geografia, Economia, Política, Filosofia, Ciências. E, principalmente, recomendo ler e estudar a Bíblia. Leia ao menos um capítulo por dia. Se nunca leu nada na Escritura Sagrada, se sua Bíblia está apenas servindo como objeto decorativo na sua estante há tempos, está coberta de poeira, ou é uma brava e longeva resistente aos ataques constantes de traças e cupins, ainda estando inteira por um santo milagre;  você não sabe o que está perdendo por não lê-la e estudá-la.

Para começar, aconselho a ler o Evangelho de João, no Novo Testamento, que é o mais curto dos quatro Evangelhos. No Antigo Testamento, leia o livro de Provérbios. São 31 capítulos ao todo e, assim, você pode ler um por dia, completando a leitura do livro em um mês. Quase todos os capítulos foram escritos pelo Rei Salomão. Ali tem muita sabedoria e conselhos práticos. Você irá se surpreender. Tem muito palestrante motivacional por aí, que se apresenta como o maior guru de sua área e diz coisas que aparentam ser, para muitos, a última novidade em matéria de reprogramação mental. Na verdade, muitos desses profissionais tiraram seus ensinamentos de Provérbios. Lá se ensina sobre vários aspectos da vida, incluindo relacionamentos pessoais, família, casamento, trabalho, dinheiro, estudo, amor, etc. Você vai se deliciar em ler. É uma fonte infinita de ensinamentos. O mesmo pode ser dito do livro de Eclesiastes, também escrito por Salomão. Esse livro, forma, na Bíblia Católica, junto com o livro de Jó, Provérbios, Salmos, Cântico dos Cânticos (também de Salomão), Sabedoria e Eclesiástico (ou de Ben Sirac), os chamados Livros Poéticos da Escritura. Já a Bíblia Protestante não tem os dois últimos livros, isto é, Sabedoria e Eclesiástico. As razões para isso, que não irei expor aqui, seriam suficientes para tratar disso em, no mínimo, um artigo.

O livro de Eclesiastes é uma fonte magnífica de conhecimento. Assim como os demais livros da Sagrada Escritura.   Tem capítulos maravilhosos, verdadeiras cápsulas de sabedoria, como o conhecido capítulo 3, versículos 1 a 7:

 

Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu

Há tempo de nascer, e tempo de morrer;

tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;

tempo de matar, e tempo de curar;

tempo de derribar, e tempo de edificar

tempo de chorar, e tempo de rir;

tempo de prantear, e tempo de dançar;

tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras;

tempo de abraçar, e tempo de abster-se de abraçar;

tempo de buscar, e tempo de perder;

tempo de guardar, e tempo de deitar fora;

tempo de rasgar, e tempo de coser;

tempo de estar calado, e tempo de falar;

Impressiona como a Bíblia, mesmo sendo um livro tão antigo, continua tão atual. Tão aplicável aos dias de hoje, como foi nos dias de Salomão, milênios atrás. Realmente, “Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu”. Em tempos de coronavírus, ou COVID-19, é notável se deparar com o versículo: “há tempo de abraçar, e há tempo de abster-se de abraçar”. Em outra tradução: “há tempo de abraçar e há tempo de afastar-se de abraçar”. Para evitar a propagação do COVID-19, a recomendação é evitar cumprimentos como apertos de mão. E, principalmente, evitar abraços. Mesmo assim, não fique triste por isso. Veja por um lado positivo: você poderá fazer, a partir de hoje, uma bela poupança de abraços.  Guarde os seus abraços para um momento mais favorável e adequado. Vá estocando eles, aos poucos, com paciência e perseverança. Vá guardando, no seu coração, um monte deles, para distribui-lós, fartamente, generosamente, calorosamente, bem apertados, aos seus queridos  e amados, em ocasião oportuna.  Por enquanto, para preservar a saúde deles e a sua, é tempo de afastar-se de abraçar.

Salta aos olhos também o versículo: “ há tempo de matar,  há tempo de curar”. Nessa atual crise, há muitos, infelizmente, que desperdiçam seu precioso tempo tentando matar, com requintes sádicos de crueldade, o bom ânimo, a disposição, a alegria, o amor, a fé e a esperança das pessoas; espalhando mentiras, boatos e toda sorte de fake news. Há situações mais graves ainda, de indivíduos que torcem para haver o maior número de mortes pelo COVID-19, para poderem culpar as autoridades de que não gostam. São pessoas com evidentes traços graves de psicopatia. Estão profundamente doentes na alma e no espírito.

Por outro lado, os profissionais da saúde, verdadeiros heróis, estão a usar seu precioso tempo para salvar vidas. Estão usando seu tempo para curar. São combatentes, na linha de frente, de uma guerra contra um inimigo invisível e cruel, que invade, sorrateiramente, o organismo humano para tentar minar suas defesas e destruí-lo por dentro. Esses guerreiros da saúde estão dispostos a tudo nessa guerra para vencer o COVID-19, mesmo sob o risco de perderem a própria vida, como ocorreu com o médico chinês, Doutor Li Wenliang, o primeiro que tentou alertar aos chineses sobre o coronavírus, tendo sido perseguido e preso pelas autoridades de seu país por causa disso. Dias depois, morreu, com apenas 34 anos, vítima da doença, já que tinha contraído o COVID-19 ao tratar de pacientes infectados. Deixou esposa grávida e uma filha de cinco anos. Não nos esqueceremos de exemplos de abnegação como esse do Dr Li, nobre e virtuoso médico, que perdeu sua vida muito jovem tentando salvar outras vidas. Todos esses bravos heróis da saúde são dignos de nosso aplauso, de nossa admiração, da nossa eterna gratidão e do nosso mais profundo reconhecimento.

Como no caso da família do Dr Li, infelizmente, para muitos, em todo o mundo, principalmente em países mais afetados como China, Itália e Espanha; é tempo de chorar e de prantear, como dito no capítulo 3 do Eclesiastes. Desgraçadamente, tempo de chorar e de prantear pela perda de familiares, parentes e amigos por causa dessa maligna praga. A essas pessoas, que perderam entes queridos, enviamos, juntas, nossa solidariedade, nossas orações, nossa intercessão e nossas preces. Que Deus Todo Poderoso ampare e conforte, com Sua Graça e Misericórdia infinitas, esses aflitos e doloridos corações.

No entanto, quando chegar o tempo da cura e da erradicação dessa doença, que desejo estar muito próximo, também virá o tempo de rir. Quando vier o tempo em que essa peste seja vencida, chegará o tempo de as pessoas voltarem a se abraçar novamente. Os abraços serão retirados de seus estoques, de seus depósitos, de seus armazéns sentimentais e serão distribuídos como nunca antes, com muita generosidade, com muito calor humano, com muita alegria, com muita felicidade, com muito regozijo. As pessoas irão rir, saltar e dançar por poderem se abraçar de novo. Farão festas alegres, cheias de júbilo, somente para comemorarem a possibilidade de se abraçarem, com força, e sem riscos, como antes podiam fazer. Abraçar é algo tão simples, mas que muitos se esqueceram de colocar em prática. O COVID-19 veio para, dentre outras lições a serem aprendidas, nos lembrar da importância do abraço. De acordo com pesquisas científicas, um abraço apertado, bem dado, com amor e carinho, é algo extremamente benéfico para a saúde e para o bem estar humano, pois libera uma substância chamada oxicitocina, também chamada de hormônio do amor.

Por falar nisto, tenho uma pergunta a lhe fazer: Quanto tempo faz que você deu um abraço bem apertado, e caloroso, em alguém que você ama? Não se lembra? Que pena! Mas nem tudo está perdido. Essa crise vai, pelo menos, fazer com que você reaprenda a abraçar.  Essa pandemia irá nos ensinar a valorizar, devidamente, e justamente, o abraço. Tem coisas que são valorizadas apenas quando se perdem. Ou quando são lembradas, porque estavam, há muito tempo, esquecidas. Quando essa epidemia passar, o abraço será valorizado como nunca antes na história. A cotação do abraço, neste momento, está submetida a uma valorização crescente e exponencial na bolsa de valores dos gestos de amor.

Quando a recessão for superada, a economia voltar a crescer, as pessoas desempregadas voltarem ao mercado de trabalho, será tempo de edificar aquilo que foi derrubado por esse verdadeiro terremoto biológico. Quando essa pandemia for um episódio do passado, e as crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos, de todas as cores, etnias, estratos sociais e econômicos puderem frequentar, novamente, sem receio do COVID-19, as praças e parques; quando puderem passear pelas belas alamedas, como costumavam fazer antes, será novamente tempo de rir, de dançar e de saltar de alegria. O tempo de chorar e de prantear terá ficado para trás.

Assim, ocupemos de forma sábia nosso tempo. Façamos votos e oremos para que o tempo de nascer, de plantar, de curar, de edificar, de rir, de dançar, de ajuntar pedras, de buscar, de guardar, de coser e, lógico, de abraçar chegue o mais rápido possível!

 

Lívio Oliveira, para Vida Destra, 26/03/2.020.

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Reginaldo B. Brito
3 meses atrás

Boa, Livio!
Estou estocando os meus abraços.

Olimpia Brito Cabrini
Olimpia Brito Cabrini
3 meses atrás

Quanta sensibilidade contida nesse artigo… quase uma poesia ! Parabéns Lívio Oliveira! Guardando abraços!????????