“Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la.” Edmond Burke

Ao estudar a história do Brasil, em meados dos anos de 1960, aprendi que Domingos Calabar, mestiço nascido pobre em Porto Calvo, hoje Estado de Alagoas, acabou por tornar-se um próspero senhor de engenho na então Capitania de Pernambuco.

Foi ele quem, nos idos de 1632, apoiou os holandeses invasores das terras brasileiras, lhes ensinado os caminhos e trilhas dos arredores de Recife, valendo-se de seus conhecimentos da região oriundos das furtivas atividades de contrabandista. Acabou sendo preso pelas tropas de Matias de Albuquerque, foi julgado, condenado e, com a idade de 26 anos, foi garroteado e teve o corpo esquartejado colocado em pública exibição em 1635, recebendo a alcunha de traidor.

Foi com surpresa que anos mais tarde, em 1974, li o texto da peça “Calabar: o Elogio da Traição”, de Chico Buarque e Ruy Guerra, na qual os autores relativizaram a traição de Calabar, possivelmente inspirados no livro “Calabar” de Romeu de Avelar, publicado em 1938 e reeditado em 1973, que apontava o histórico personagem mais como um guerrilheiro brasileiro que tinha o direito de escolher de que lado iria lutar do que um traidor. Uma tese interessante que, talvez, na visão de Chico Buarque e Ruy Guerra, procurasse estabelecer um paralelo entre a atuação do histórico Calabar com os guerrilheiros que lutavam no Brasil pela implantação de um regime comunista. A peça foi proibida pelos censores do Regime Militar, mas foi encenada em 1990.

Em 2018, na cidade de Porto Calvo, Calabar foi simbolicamente absolvido do crime que lhe foi imputado. Entendo a razão dessa absolvição: a cidade recusava o estigma de ser o berço de um traidor. Para mim, porém, Calabar foi um traidor da Pátria que apenas aceitava trocar um colonizador por outro. Ponto final.

Outro personagem histórico apontado como traidor foi Joaquim Silvério dos Reis, nascido em Portugal e residente no Brasil, no Estado das Minas Gerais, onde atuou como Coronel da Cavalaria, além de ser rico proprietário de terras e possuidor de uma lavra de ouro. Foi ele quem, em 1789, denunciou ao Governador da província, a existência de um movimento em Vila Rica que ficou conhecido como Inconfidência Mineira. Acusado de traição pela população da época, fugiu para Portugal, retornando ao Brasil apenas em 1808 com a corte de D. João VI, aqui falecendo de causas naturais em 1819.

Sabemos o que aconteceu com os inconfidentes, especialmente com Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, também alcunhado de Mártir da Independência ou Mártir da Inconfidência. Mas, seria Silvério dos Reis um traidor ou a delação dele apenas revelava que sua lealdade estava ao lado do reino português? O fato é que ninguém jamais relevou a denúncia dele e passou para história brasileira como um pusilânime traidor.

Na verdade, o que se sabe sobre esses dois casos, é que a motivação tanto de Calabar, quanto de Silvério dos Reis, foi bem menos ideológica do que materialista. Calabar, junto aos holandeses, tornou-se dono de terras e de engenho e Silvério dos Reis pediu como prêmio por sua delação uma quantidade de ouro, o perdão das dívidas fiscais, a nomeação para o cargo de Tesoureiro das províncias de Minas Gerais, Goiás e Rio de Janeiro, uma mansão para moradia, pensão vitalícia e título de Fidalgo da Casa Real. Enfim, tudo indica que, em ambos os casos, os interesses pessoais se sobrepuseram à ideologia e que as escolhas feitas por ambos tiveram motivações bem menos nobres que ideologia, lealdade ou patriotismo.

Trago isso à baila porque hoje, quando vemos a atuação de certos políticos brasileiros que ocupam altos cargos no Congresso, ficamos com a nítida e indiscutível impressão que agem – tal como os dois traidores consagrados pela história, apesar das notórias diferenças entre eles – por interesses outros que não a ideologia ou valores como a lealdade e o patriotismo. Aproveitam-se da posição que ocupam para tanto impedir a governabilidade de quem foi democraticamente eleito, atrasando ou bloqueando projetos vitais para a retomada do desenvolvimento do país, como se valem dessas posições para atuar com espírito corporativista, criando ainda mais insuportáveis benesses em favor da classe política interesseira, à custa dos impostos pagos pela população. Agem como chantagistas que usam o cargo para travar e atravancar, fazendo do constante obstar uma moeda de troca, bem ao estilo da odiosa velha política que pelo voto demonstramos querer mudar.

Esses passarão para a história como ignóbeis traidores. Traem ao povo brasileiro cujos interesses deveriam preservar, pois nada fazem em nosso benefício, a não ser estender as dificuldades e penúrias que quase 16 anos de péssimos governos corruptos nos impuseram. Por essa razão, deveriam ser alijados da vida pública brasileira. Mas, haveria como fazer isso de maneira democrática? Será que nossa paciência suportará esperar ainda mais ou já está na hora de nos mobilizarmos em relação a esses e outros traidores?

O poder emana do povo e em nosso nome deveria ser exercido. Se não é por nós – o povo – cabe-nos exigir a mudança. Penso que já passou da hora.

Laerte A Ferraz para Vida Destra 21/09/2019

Laerte A. Ferraz

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