“Menino quando morre vira anjo; mulher vira uma flor no céu; malandro quando morre vira samba” (Chico Buarque)

 

O Brasil está espantado em ver como o ministro Gilmar Mendes gosta de soltar bandidos e corruptos. Cair nas mãos do velho Gilmar é ganhar na loteria da impunidade. É ter certeza de que o larápio sairá livre, leve e solto. É a artimanha da malandragem incorporada ao labor jurídico!

Por incrível que pareça, já há algum tempo, certos ministros do STF vêm usurpando do Legislativo, já que o Executivo está curado deste mal, o dom da malandragem. E não é de se espantar com o que acontece lá em cima. O modus operandi do STF e do Congresso Nacional nesse particular é apenas um reflexo de uma cultura muito maior. Na verdade, somos uma sociedade que transformou a malandragem em valor moral. É só prestar atenção aos aspectos mais populares da nossa cultura: literatura, música e cultura pop, que propagam apologia à malandragem. Ora, quem é “Zé Carioca”, senão um malandro urbano criado por Disney para representar o Brasil ? Na primeira vez que encontra o Pato Donald o embriaga, fazendo-o cair na folia. Malandro virou codinome; temos o nosso Sérgio Malandro; na literatura “Macunaíma” é nosso alter ego burlesco. É assim também que Manuel Antônio de Almeida representa Leonardo em “Memórias de um Sargento de Milícias”, e Pedro Malasartes, o malandro lusitano, se encaixou bem em nossa cultura. Até o além possui em nosso imaginário religioso o seu malandro – Zé Pelintra. E, coincidentemente ou não, o curioso é que o Hit de 2016 foi a música “Malandramente”. Bezerra da Silva com seu samba do malandro exaltava constantemente a “boa” malandragem regida pela famosa “lei de Gérson” que quase coercitivamente promulga: “sempre leve vantagem em tudo”. E como gostamos de seguir à risca essa lei! Compramos nota fria para burlar a mordida do Leão; transferimos pontos da CNH para não perdê-la; utilizamos o cartão de idoso do pai para estacionar o veículo; não devolvemos o dinheiro que veio a mais no troco do supermercado (afinal de contas isso não é problema meu, foi o trouxa que errou); damos gorjeta antecipada para obter privilégios. “Pagar” um cafezinho para o agente de trânsito e adquirir atestado médico falso, que mal há nisso? Afinal de contas, todo mundo faz; sem falar dos famosos e cada vez mais sofisticados “gatos” de água, luz, internet, TV, etc.

Mas o pior de tudo isso é que a aceitação cultural da malandragem leva à aceitação da corrupção generalizada. E os que acusam a malandragem criminal de nossos políticos e empresários reforçam-na, criando brechas “aqui em baixo” para que eles possam agir “lá em cima” numa retroalimentação abjeta da “velha política”. A verdade verdadeira é que, na maioria das vezes, nós acusamos neles o que há de pior em nós. E a polarização hierárquica cantada na música “Zé Ninguém” da banda “Biquíni Cavadão”, talvez explore a ilusão de que nossa ética é diferente: “Eu não sou ministro, eu não sou magnata, eu sou do povo, eu sou um Zé Ninguém; aqui embaixo, as leis são diferentes”. O caso é que em se tratando da “lei de Gérson”, tanto aqui, quanto lá, não há nada de diferente: somos todos iguais! É tempo de mudar. Por um Brasil sem malandragens!

 

Paulo Cristiano da Silva, para Vida Destra, 15/08/2020
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Nunes
Nunes(@nunes)
Admin
1 ano atrás

Excelente artigo. Eu estava pensando isso dias atrás. Artigo veio como luva.

Sander Souza
Sander Souza(@sanderjp)
1 ano atrás

Parabéns pelo excelente artigo!
Muito pensam que a corrupção envolve apenas valores financeiros e que só existe no meio político. Se esquecem que, na verdade, a corrupção começa com os valores morais, e a lei de Gérson contribuiu muito para a decadência dos valores morais da nação!

Davidson José de Sousa Oliveira
Davidson José de Sousa Oliveira(@davidson-oliveira)
1 ano atrás

Senhor Paulo, que texto excelente!!! Agradável demais a leitura! Muuuuito bom!
Parabéns

ARILDO LOUZANO DA SILVEIRA
1 ano atrás

O que acontece no STF e no congresso, bem como no mundo da velha política, somente será revertido com a mobilização das massas, em protestos como os de 2013. Na época houve liderança de personalidades influentes da sociedade, muitos deles hoje em cargos eletivos. Agora que têm maior poder de mobilização e imunidade parlamentar, quanto tempo vão ainda demorar para convocar novas mobilizações? Será que sucumbiram tão rapidamente assim às cômodas mazelas da velha política?

MARCELO RAMOS BEIJO
MARCELO RAMOS BEIJO
1 ano atrás

Parabéns Paulo Cristiano, excelente artigo! Abrangente, pegando todas as camadas do sistema vertical (de malandragem) que temos no Brasil.

Roseli Lorena Leonel
Roseli Lorena Leonel
1 ano atrás

Belo artigo! Parabéns…
Pura verdade que a sociedade transformou a malandragem em valor moral e fica difícil em acreditar em nossos políticos, porque à população de modo geral está enquadrada na mesma ética, onde devolver um troco já não é culpa nossa, etc…