Em tempos de paz, estabeleça bases – parte 1

 

Eram comadres. Dessas que viveram há muito tempo. Faziam tudo juntas. Saíam na vendinha do seu Zé. Passavam horas falando das sinhás enquanto trabalhavam lavando as roupas do casarão na beira do rio. As histórias que contavam e as músicas de timbre agudo e estridente, ajudavam a passar os exaustivos dias ensolarados na lida.
O maior orgulho das lavadeiras era deixar as roupas ensaboadas ‘quarando’ por cima das pedras e depois sair tinindo de tão alvas para serem estendidas ao sol.
Uma estava sempre atenta a tudo, principalmente ao tempo…se ventava, se esfriava bruscamente, o desenho das nuvens…crendices dessas que convenciam qualquer um de que as histórias eram verdadeiras.
A outra, por sua vez, era sempre avoada…sonhando com o dia em que não precisaria mais lavar roupas e, sim, ter as suas lavadas.
Acontece que num desses dias, após lavarem e entenderem as roupas, uma observou o tempo e disse à outra:
“Óia lá, menina, o tempo hoje tá pra chuva”…Fique atenta e recolha suas roupas assim que perceber que a ventania começa!
A outra retrucou incrédula:
“Que nada, não ouvi o sinhozinho reclamar do braço”…
Sinhozinho sempre reclamava de dor no braço esquerdo que machucara numa cavalgada. Era mais preciso que a previsão do tempo. Se doía, ele já acordava recomendando um dia de chuva…
A verdade é que a advertência da lavadeira ‘entrou por um ouvido e saiu por outro’….
Enquanto a roupa estava secando, uma brisa suave parecia indicar que não choveria.
‘Comadre deve estar ficando doida, nenhuma nuvem no céu, impossível chover hoje. Só se for à noitinha.- resmungou casarão adentro.
Distraiu-se com as crianças da casa.Tanto que quando o pequeno fidalgo se aquietou, pegou no sono também.
Lá fora, a brisa formava pequenas manchas no céu azulzinho, que se tornaram um aglomerado de enornes, densas e escuras nuvens, típicas de um temporal de verão. Passageiro, mas suficiente pra fazer um estrago.
O vento soprava cada vez mais violento.
A falação tornou-se gritaria…
E agora…será que comadre acreditaria na experiente companheira? Será que daria tempo de recolher as brancas roupas das Sinhás, que a essa altura já deviam estar secas?

Continua…

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