Entendendo as motivações de Olavo de Carvalho (e por contexto, de Mourão)

O presente artigo procura explicar didaticamente porque o maior pensador brasileiro vivo executa determinadas ações em sua atuação pública.

 

Olavo de Carvalho, além de filósofo de alcance universal e principal influenciador do movimento conservador brasileiro, é um dos grandes analistas políticos de nossa época. Sua capacidade de analisar a realidade e prever cenários futuros já foi provada e só um tolo pode negá-la.

Não bastasse esse fato, Olavo tem grande habilidade para “ler” vocações e motivações. As primeiras são rígidas, as segundas podem ser falseadas por objetivos exteriores mais nobres que os objetivos interiores, os verdadeiros motores da ação. Nem sempre é fácil identificar este fingimento e é justamente nestes casos que os “gênios-para-si-mesmos” encontram os erros de julgamento de Olavo de Carvalho.

Para além da constante tentativa de diminuir o analista político, lançando em descrédito suas previsões, há os que procuram motivações incompatíveis com a personalidade do gigante intelectual. E para demonstrar porque existe esta incompatibilidade, utilizarei lógica e a própria tipologia espiritual exposta brilhantemente pelo professor.

 

Pequeno comentário sobre a tipologia espiritual

A tipologia espiritual baseia-se no fato observável em grupos humanos que levou à constituição da sociedade hindu tradicional: as pessoas podem ser separadas em subgrupos chamados de castas. Descontado o preconceito moderno sobre o tema, percebe-se quatro tipos qualquer que seja o meio em que esteja inserido o grupo humano:

Shudra: quem vive para satisfação do próprio prazer sem nenhum objetivo maior. São os trabalhadores em geral.

Vaishya: quem vive para o sucesso, seja fama, poder ou dinheiro. Pessoas que vivem de empreendimentos e são capazes de defender os interesses próprios e de seu grupo. Pessoas que procuram o poder e o utilizam para também beneficiar seu grupo. São os empresários e políticos em geral.

Kshatriya: quem vive para o dever, seja para com a pátria, cultura ou progresso da coletividade. São os guerreiros e nobres homens (grandes escritores, cientistas, etc.).

Brahmana: quem vive para a libertação do espírito; quem está preocupado em disseminar a verdade. São os sacerdotes e grandes intelectuais (sábios).

É importante também notar que, quanto maior a distância entre as castas, menor será a capacidade do indivíduo da casta inferior entender as motivações do indivíduo da classe superior.

 

Aplicação da tipologia

Uma pessoa pode não reconhecer as qualidades de Olavo de Carvalho (e são muitas), mas não admitir que a busca pela verdade é a razão última de sua vida demanda uma mistura de má vontade com canalhice. Mais do que um desejo, a busca da verdade é para ele uma questão existencial que merece todo o sacrifício. Não é mentira que Olavo perdeu diversos empregos, posição social, bens materiais e tranquilidade para defender o que achava certo enquanto nenhum de seus rivais sacrificou nada relevante. A base da filosofia de Olavo de Carvalho é o conhecimento pela presença, a compreensão da realidade, a busca da verdade na “unidade do conhecimento na unidade da consciência, e vice-versa”. Portanto, Olavo é um brahmana.

Além do supracitado, Olavo é um dos escritores que mais vendem livros no Brasil e tem no COF uma fonte de renda independente; mora nos EUA porque tem um “genius visa” e não tem nenhuma pretensão de mudar a vida estável conquistada após anos e anos de mudanças de residência e sacrifício de sua biblioteca para ter um cargo no governo…

Analisemos agora seu atual antagonista, o vice-presidente da república. Como já escrevi neste espaço, as atitudes de Mourão indicam que ele:

  1. Age em nome de um grupo (agora já se sabe que este grupo não é apenas militar, mas político-militar e tem um plano de poder próprio);
  2. Dialoga com elementos da esquerda e demais parasitas grudados no Estado (mídia, empresários, juízes, etc.);
  3. Não faz distinções entre nações que têm clara atuação ideológica porque possui uma visão positivista e puramente econômica das relações internacionais (e é por esta razão que critica nosso chanceler);
  4. Trai o povo conservador e liberal ao desfazer as mais importantes promessas feitas por Bolsonaro;
  5. Busca uma legitimidade que não possui porque não teria sido eleito presidente e é incapaz de aceitar que um vice-presidente ocupa a mesma posição de um estepe (você carrega por necessidade, mas é melhor nunca ter que utilizar);
  6. Tem objetivos pessoais nada nobres, principalmente uma necessidade de poder já demonstrada mesmo antes das eleições, quando fez declarações que o colocavam como o líder de uma possível ação intervencionista. Impressiona o trecho da matéria do Intercept com seu mentor: “O PSL não queria o Mourão”, disse Assis. “O Mourão é estrela.” Perguntei três vezes o que ele queria dizer com isso, mas ele se esquivou: “Ah, não importa”. Depois mudou de assunto.

Ou seja, apesar de ser lógico colocar Mourão na casta dos guerreiros por identificá-lo como patriota, seria equivocado ignorar tudo que foi exposto acima e o fato de que o patriotismo – seja por burrice ou má intenção – serviu como desculpa para nos afastar do EUA e entregar o Brasil para o movimento socialista internacional. E aí chegamos ao diagnóstico de que as motivações de Mourão são pessoais – poder e sucesso – e grupais – promover os elementos mais altos das Forças Armadas a grandes heróis nacionais que nos libertaram dos vermelhos (os mesmos que estavam batendo continência para Aldo Rebelo e nada fizeram). Desta forma, Mourão é um kshatriya no limite inferior, praticamente um vaishya.

 

Conclusões e consequências

Vivemos atualmente em uma sociedade comandada pela casta vaishya que tem motivações econômicas – seja socialismo ou capitalismo – em transição para uma sociedade comandada pela casta shudra, em que os desejos individuais adquirem importância maior do que o bem coletivo ou a salvação da alma.

A dificuldade de entender Olavo de Carvalho é uma consequência natural da limitação de visão de mundo das castas. Os que atribuem ao filósofo motivações ligadas à vaidade, necessidades materiais e arrogância são elementos do grupo vaishya ou shudra incapazes de entender que o grande intelectual já alcançou o objetivo de libertação e procura salvar o Brasil por amor ao próximo e a sua pátria.

Por outro lado, temos um general que enganou e ainda engana muita gente por parecer ter objetivos kshatriyas, mas tem motivações interiores vaishyas que o farão sacrificar objetivos mais altos para conseguir o que ele e seu grupo querem.

Aqui cabe um pouco de história: foram as manifestações populares que fizeram o governo de Jango cair. Uma manobra legislativa fez Castello Branco assumir a presidência temporária e depois trair o movimento conservador criando um regime tecnocrático e não democrático que durou 20 anos e teve como saldos o crescimento econômico, a Hegemonia Cultural Gramsciana e a destruição do movimento conservador (inclusive através da eliminação de Carlos Lacerda – maior liderança do movimento – do cenário político).

E agora o que vemos? Militares de alta patente que foram incapazes de enfrentar os inimigos da nação porque tinham medo de perder seus soldos procurando apoio dentre os adversários para derrubar um presidente que representa os anseios de pelo menos 70% da população brasileira. Querem fundar uma nova tecnocracia em que as dimensões culturais e espirituais são ignoradas, deixando novamente a esquerda com toda a possibilidade de continuar transformando os jovens em progressistas sem religião, base familiar e amor à pátria.

Portanto, Mourão e os demais militares positivistas e oportunistas são tão inimigos do projeto de um Brasil rico, conservador, cristão e independente quanto os vermelhos.

E é espantoso que Ciro Gomes consiga fazer este diagnóstico enquanto tantos membros da direita que se consideram brilhantes atacam e diminuem o nosso maior intelectual (ainda se precisa provar que o efeito Dunning-Kruger é real?). Ciro analisou a situação e ainda percebeu as limitações intelectuais do general-pavão, duas fraquezas que os estrategistas da esquerda adoram explorar.

Olavo disse há algum tempo que Ciro Gomes era um homem de inteligência superior com vocação para grande estadista que destruiu sua carreira por perseguir objetivos errados. Parece que ele mais uma vez tem razão.

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