O socialismo (e não o comunismo, como eles dizem) se estabeleceu na China com Mao Tsé Tung, a partir de 1949, quando este controlou toda a China Continental, promovendo uma reforma agrária radical, usando a violência e o terror para derrubar latifundiários e distribuir suas terras entre comunas populares. Com a “Revolução Cultural”, Mao fechou a China ao comércio internacional, aboliu o livre mercado e, com isso, causou a Grande Fome Chinesa (1958-1961). A coletivização forçada da agricultura reduziu drasticamente os incentivos para que os camponeses produzissem, além de que a concentração da massa trabalhadora na produção de ferro e aço deslocou grande parte desses camponeses para trabalhar em mineração e siderurgia. Isso, somado às execuções e torturas contra os “inimigos políticos”, deixaram 70 milhões de mortes chinesas na conta de Mao e do socialismo.

Então surge Deng Xiaoping. Depois de idas e vindas ao poder, justamente porque se opunha a Mao, Deng assumiu o controle da China em 1978. A partir daí, começou a aplicar amplas reformas econômicas, desmantelando o sistema comunal de produção agrária (realizou uma verdadeira reprivatização agrária). Os agricultores passaram a ter liberdade na administração das terras e na venda dos produtos, além de que a elevação da produção favoreceu a instalação de indústrias leves nas zonas livres – inclusive com liberdade de escolher as atividades industriais que fossem mais lucrativas. Isso levou a um ciclo virtuoso na Economia da China, que se mantém até hoje. E também uma frase de Deng Xiaoping, que chocou os intelectuais de esquerda: “Lucrar é glorioso!”.

Deng Xiaoping.

Ao mesmo tempo que realizava essa abertura econômica, Deng iniciou as aberturas diplomática (Deng visitou os EUA em 1979, e se encontrou om Jimmy Carter) e comercial da China, estabelecendo zonas econômicas especiais (regiões onde se praticava o livre mercado), bem como áreas costeiras abertas ao comércio internacional. Com isso, empresas estrangeiras foram se estabelecer na China (a primeira foi a Coca-Cola). Houve um rápido crescimento econômico nas zonas especiais e nas áreas livres, bem como crescimento populacional (chegando a 1 bilhão de habitantes em 1982). E também, um choque social: enquanto os habitantes dessas zonas econômicas especiais e das áreas costeiras livres prosperavam, surgindo ali uma classe média, os habitantes de grandes cidades (como Pequim) ainda viviam em pobreza e encerramento cultural. As reformas econômicas foram realizadas de baixo para cima, primeiro nos municípios e províncias, para depois serem levadas ao resto do país. De toda forma, essa abertura aos livres mercados fez o PIB crescer a índices altíssimos (por exemplo, 15% em 1984 e 13,5% em 1985). O que Deng fez, em resumo, foi “recriar” a classe média, na China, partindo do setor rural, que se desenvolveu enormemente.

Cena história do Massacre da Praça da Paz Celestial, quando um cidadão chinês deteve o avanço de uma coluna de tanques.

Esse contraste entre os grandes centros urbanos (que não se beneficiaram desse grande crescimento econômico) com as províncias e as zonas costeiras (que estavam se desenvolvendo) levou ao Massacre da Praça da Paz Celestial (Tian’anmen), em 4 de junho de 1989. Os manifestantes (milhares, calcula-se algo em torno de 5 mil) eram oriundos de diferentes grupos, desde intelectuais que acreditavam que o governo do Partido Comunista era demasiado repressivo e corrupto, a trabalhadores da cidade, que acreditavam que as reformas econômicas na China estavam sendo lentas e setorizadas, além de que a inflação e o desemprego estavam dificultando suas vidas. Os protestos, que consistiam em marchas pacíficas nas ruas de Pequim, haviam começado em 15 de abril. No dia 4 de junho, Deng Xiaoping (ou Li Peng, há controvérsias sobre quem deu a ordem) determinou que o Exército reprimisse a manifestação, com saldo de mortes que chega à casa de centenas, ou milhares. Não há dados precisos sobre o número de manifestantes, nem sobre as mortes. A repercussão internacional disso levou à renúncia de Deng Xiaoping, ainda em 1989, do cargo de Comandante da Comissão Militar Central. Em 1992, sairia de vez do cenário político. Morreu em 19 de fevereiro de 1997, de complicações devidas ao Mal de Parkinson.

Zhu Rongji.

Já em junho de 1989, Jiang Zemin assume o cargo de Secretário-Geral do Partido Comunista Chinês. Em 1993, após a morte de Xiaoping, assume também a Presidência da República Popular da China, permanecendo no cargo até 2003. Basicamente, Jiang Zemin manteve as políticas econômicas de Deng Xiaoping. A grande estrela nesse processo de abertura econômica, entretanto, foi o Ministro da Economia, Zhu Rongji.

Zhu Rongji foi premier do PCC, no período de 1998 a 2003. Suas ações:

  1. Reforma do sistema tributário, propiciando distribuição de receitas;
  2. Reestruturação do sistema financeiro, privatizando grandes bancos estatais, limitando a oferta monetária, desvalorizando o yuan (moeda chinesa), reduzindo as taxas de juros através da concorrência,;
  3. Redução da burocracia pela metade, aliada a um grande projeto anticorrupção;
  4. Investimentos pesados em agricultura, indústria, transporte e energia.

Destaque-se outros episódios, no período: em 1997 o Reino Unido devolveu Hong Kong à China, em 1999 Portugal devolveu Macau e finalmente, em 2001, a China entrou na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Depois de Jiang Zemin, Hu Jintao foi Presidente, no período de 2003 a 2013. Desde 2013, encontra-se no poder Xi Jinping. A economia chinesa continua adotando um livre mercado, sob controle estatal, e hoje a classe média chinesa é a maior parte da população. Há quem diga que a economia chinesa é um “socialismo de mercado”, o que considero ilógico, uma contradição em termos. Outros (eu, inclusive), a consideram um “capitalismo de Estado”, sob inspiração keynesiana em essência. Em breves linhas, adotam uma economia de livre mercado, sob forte planejamento e controle do Estado. O modelo geral adotado é o da Plataforma de Exportações, ou seja, a China integrou-se rapidamente ao Comércio Internacional, o que se verifica, mais fortemente, desde os anos 90. Quer coisa mais capitalista que essa?

O crescimento da Economia chinesa foi e é espetacular:

  1. A partir da adoção de livres mercados, com a instituição das zonas costeiras livres e as zonas econômicas especiais, a economia chinesa deu um arranque, existindo a possibilidade de lucro e concorrência, saindo do marasmo socialista;
  2. A partir do momento em que a China adotou firmemente o modelo da Plataforma de Exportações, com Zhu Rongji, sua economia disparou e o PIB cresceu enormemente.

O Brasil insiste em um modelo diferente da Plataforma de Exportações (voltado ao Mercado Internacional), qual seja, o de Substituição de Importações (voltado ao Mercado Doméstico) e, portanto, sua Economia ficou patinando em níveis mais baixos. Como exemplo desse modelo no Brasil (substituição de importações) aponto o alto índice de nacionalização de peças que se exige nas indústrias aqui, e outras medidas e estruturas que dificultam a integração do Brasil ao mercado internacional, como o sistema tributário (altas tarifas de importação).

É interessante que se diga que, em termos percentuais, a China tem visto seu crescimento desacelerar, desde 2007 (quando chegou a +14,2%!). Incluindo o Brasil nesse gráfico, chega-se a uma curiosa constatação.

Qualquer leigo percebe que há um paralelismo nos índices mostrados. Isso significa que houve (e há) uma excessiva dependência da nossa economia à economia chinesa, até 2013. A partir daí, a economia brasileira começou a despencar, por conta das burradas cometidas pela administração pública de Mantega e Dilma. Por exemplo, as expressivas quedas no PIB brasileiro, nos anos de 2015 e 2016 (-3,5%, em ambos os anos), devem-se às desastradas políticas econômicas adotadas no Governo Dilma, especialmente a explosão da dívida pública, que inviabilizou novos investimentos. Essas quedas do PIB, associadas às inflações daqueles anos, que foram de 10,67% em 2015 e 6,29% em 2016 (IPCA), bem como o desemprego, que disparou a partir de 2014, na minha ótica, a levaram ao impeachment (“É a economia, estúpido” – by James Carville).

O que se conclui do histórico é que a China, no campo político, pode até se apresentar como país socialista, já que se trata de um governo de partido único – efetivamente, o socialismo não admite pluralidade de ideias. Mas é certo afirmar que, no campo econômico, NÃO se trata de socialismo, mas um “capitalismo de Estado”, um “keynesianismo à moda chinesa”, isto é, uma economia com mercado livre cujo desenvolvimento é fortemente induzido e sustentado pelo Estado. Ou seja, o discurso chinês é, no mínimo, contraditório: capitalismo para nós, socialismo para o resto do mundo.

Fábio Talhari, para Vida Destra, 17 de setembro de 2019.

Fábio Talhari

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