Sempre digo aos meus alunos que há três livros que considero pontos de partida para qualquer discussão para o Brasil. A pessoa pode gostar, concordar ou não, compactuar ou não com as teses, mas são fundamentais para o começo de qualquer discussão sobre nosso país:

  1. “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Hollanda, sobre o “Homem Cordial”.
  2. “Casagrande & Senzala”, Gilberto Freyre, sobre o “melting pot”.
  3. “Formação Econômica do Brasil”, de Celso Furtado, uma análise keynesiana da História Econômica Brasileira (pela minha ótica).

A turma da esquerda vai preferir, no item 3, “Formação do Brasil Contemporâneo”, de Caio Prado Jr.. Conquanto eu tenha respeito pelo método da dialética histórica, desprezo a análise marxista, porque é fundada em premissas equivocadas. Os ditos “economistas” marxistas ignoram o mercado de capitais e de fatores de produção, e pior, contrapõem-se a ele e o combatem. Esse é um dos motivos pelo qual o socialismo não dá certo: um sistema político e econômico que se contrapõe ao setor da economia que gera riquezas jamais as conseguirá (Roberto Campos). Isso é assunto para outro artigo, contudo.

Sérgio Buarque de Hollanda foi historiador, jornalista, crítico literário e foi um dos fundadores do PT, em 1980. É pai de Chico Buarque. Dos três livros que citei, é o mais curto e o mais agradável de ler. Acho até que é o mais poético dos três, muito gostoso de ler, o texto flui. Por exemplo, a comparação entre os espanhóis, “ladrilhadores de cidades”, e os portugueses, “semeadores de cidades” nas colônias, é francamente artística.

Mas a frase pela qual o livro ficou conhecida é a que encerra a tese do “brasileiro, um homem cordial”. Quando Sérgio disse isso, não foi no sentido de ser o brasileiro um tipo gentil, cordato, educado. Até pode ter essa interpretação, mas por extensão. Sérgio queria dizer “um homem do coração”, do latim (tardio) “cordialis”, um tipo emotivo, empático, sentimental, eu diria, até “chorão”. Era isso que ele queria extrair da semântica.

Efetivamente, nos anos 30 (a obra foi publicada, originalmente, em 1936, sob Getúlio Vargas), era até a fama internacional do povo brasileiro: um povo hospitaleiro e emotivo.

Entretanto, por conta da eleição passada, o que estamos assistindo é até uma confirmação da tese, o brasileiro é um homem do coração, mas pela fama e atitude contrária da época de sua escrita.

O que estamos assistindo é uma polarização inédita no tecido social brasileiro. A formação de dois campos distintos, direita e esquerda, que nos seus extremos têm adotado um discurso de ódio como nunca vi em minha vida, nem tomei ciência em livros de História.

E como isso começou?

Primeiro, vamos analisar as posições filosóficas e ideológicas (se é que existem) da direita.

Comecemos pelo Capitalismo. Uma das bandeiras comuns às correntes de direita nessa última eleição foi o apreço ao livre mercado, e à adoção de políticas econômicas liberais. O meu voto na direita concretizou-se em Bolsonaro, quando este anunciou como ministro Paulo Guedes. Este Mestre de Economia teve sua formação no espectro que vai da Escola de Chicago (neoliberal, Milton Friedman) até a Escola Austríaca (ultraliberal, Mises, Hayek). Filio-me à Escola de Chicago.

Para efeitos didáticos, em aula, considero que o Capitalismo começou já no Mercantilismo. Há autores que consideram que o Mercantilismo já é uma forma de Capitalismo, ou pré-capitalismo, eis que com ele surge uma nova classe social, que foi a burguesia. O Capitalismo, enquanto sistema econômico (e não político, desenvolveu-se em quatro fases, sob essa ótica:

  1. Capitalismo comercial: ou o Mercantilismo. Surge a Burguesia, que entrou em conflito com a Nobreza. O burguês é o “não-nobre”, que através da atividade comercial acumulou riquezas, e poder;
  2. Capitalismo industrial: nos livros clássicos, a primeira forma de capitalismo. Representa a fixação da burguesia como categoria social mais alta;
  3. Capitalismo financeiro: através da movimentação financeira, surgem de um lado os “hedgers” (pessoas que buscam proteção de um ativo, ou derivativo, ou de um preço de compra ou de venda, no mercado), que se contrapõe aos especuladores (pessoas que buscam lucro através de arbitragem – comprar barato e vender mais caro, seja no tempo, seja no espaço);
  4. Capitalismo da informação: a fase presente, em que o ativo mais precioso de uma empresa é, justamente, a informação.

Interessante reparar nesse processo que o Capitalismo não é um sistema planificado e não é uma ideologia. Ele decorre da somatória dos comportamentos dos agentes, atuando em diversos mercados, aplicando-se aí inclusive o tempo, eis que foi-se modificando através da História, adaptando-se a cada momento desse processo. Nesse sentido, podemos dizer que o Capitalismo é um “sistema natural” e não-ideológico, em sincronia e sintonia com a natureza humana.

Os estudos, constatações, conclusões e os modelos que são usados nos sistemas capitalistas, sejam liberais, ultraliberais, neoliberais, keynesianos ou neokeynesianos, decorrem da observação do comportamento desses agentes atuantes nos mercados. Apenas da observação, aplicando-se o mínimo de juízos de valor, daí sua essência não-ideológica.

O primeiro grande pensador da teoria clássica, liberal, e também considerado o primeiro economista, foi Adam Smith. Em sua obra maior, “A Riqueza das Nações”, expõe as bases da maioria dos sistemas econômicos.

Smith constata que a as pessoas são, em essência, seres egoístas e racionais. Esse tipo foi denominado “homo economicus”: o homem (espécie, não gênero) toma decisões nos mercados visando seu maior bem-estar (que denominamos “utilidade”, em Economia), em troca do menor esforço. Ou seja, segundo Adam Smith, a interação econômica do ser humano é ditada, sobretudo, pelos interesses pessoais. Isso poderia resultar em um caos, à primeira vista. Mas não. Smith observa também que esses indivíduos, agindo em interesse próprio, competem entre si, pela maior utilidade para cada um. Mas nos mercados, se um vendedor cobra caro demais, algum outro reduz seu preço e fará mais negócios, e o “careiro” fica para trás, com estoques encalhados. Por outro lado, se um empregador paga salários baixos demais, outro vai contratar por salários maiores aqueles mesmos empregados, resultando que o unha-de-fome ficará sem mão-de-obra, e deverá falir, inclusive. Desse quadro todo, ele conclui que as empresas são a base do funcionamento de uma Economia, e se não pagarem salários de mercado e não fizerem os produtos que o mercado exige, pelos preços que as pessoas estão dispostas a pagar, irão à falência. Daí as duas conclusões fundamentais de Smith:

  1. Cada um fazendo o melhor por si, resulta no melhor para todos;
  2. A “mão invisível” do mercado impõe ordem.

Até 1848, esse modo de pensar foi soberano. Nesse ano, entretanto, Karl Marx e Friedrich Engels publicam o “Manifesto Comunista”. Mais tarde, Karl Marx publica “O Capital” (1867). Vamos observar as bases ideológicas e filosóficas da esquerda.

Marx observa que, sob o Capitalismo, os meios de produção pertencem a uma minoria, que “explora” o trabalho da maioria, e que a ganância do lucro leva à superprodução dos bens mais procurados, causando distorções na distribuição das riquezas. O Capitalismo fica, assim, sujeito a uma série de crises, que geram insatisfação e agitação sociais. Propõe, então, que a maioria trabalhadora perceba essa “opressão” difusa e se revolte, derrubando a classe burguesa dominante e controlando os meios de produção, planificando toda a Economia. Toda teoria marxista decorre diretamente da “teoria do valor-trabalho”: o valor de uma mercadoria ou serviço decorre do trabalho dispendido em sua produção ou prestação.

Daí a primeira falha do pensamento marxista: o valor de uma mercadoria não decorre, em maioria, do trabalho. Na verdade, decorre muito mais da escassez dessa mercadoria (essa é a teoria do valor predominante hoje, a teoria do “valor-escassez”). Por conta disso, percebi empiricamente que os marxistas, socialistas ou comunistas, têm uma visão “antolhada” de mercado: consideram a existência apenas do mercado de trabalho e do mercado de consumo, submetidos a interesses de Estado. Desprezam completamente o mercado de fatores de produção, o mercado de capitais e o mercado financeiro. Uma vez que só enxergam o trabalho, chegam a conclusões equivocadas, constantemente.

O debate a respeito das falhas conceituais, metodológicas e pragmáticas do marxismo será objeto de outro artigo, entretanto. Neste, a maioria dos leitores deve estar perguntando: “Qual a conexão entre Sérgio Buarque de Hollanda, Marx e Adam Smith?

Pois bem: pretendo apontar a questão do ódio, inerente ao socialismo/comunismo, que contaminou o “homem cordial” brasileiro!

Veja-se que desde o “Manifesto Comunista”, Marx pretendia que o proletariado, a massa trabalhadora, se revolucionasse contra a burguesia, de forma violenta e armada. Daí uma conclusão óbvia e ululante: o marxismo, seja na vertente socialista, seja na comunista, precisa do ódio entre classes para prosperar. Precisa do ódio do pobre contra o rico, do fracassado contra a pessoa de sucesso, do ignaro contra o esclarecido e por aí adiante. Lênin expressou isso. Mais explícito, impossível: colocar filhos contra os pais.

Então, de um lado, temos o Homem Cordial, o homem emotivo, do coração. Nesse terreno, a depender das sementes que se plantam, pode-se colher tanto gentilezas como esse ódio de que falei.

O discurso da esquerda sempre começa na vitimização. A “cultura do coitadinho” é um traço da alma nacional. Aliada a ela, encontramos aqui a complacência com o erro. Somos o “país dos 60%”: o brasileiro, ao fazer 60% de uma tarefa, já a considera completa, “dá para o gasto”. Ouço esse discurso dos alunos há décadas: “Ah, 6,0? Tá bom, né, tá na média…” Dessa “cultura do coitadinho” para o discurso de ódio e intolerância, é um passo. A partir do momento em que esse cidadão considera que 60% dos objetivos foram alcançados, e que ele “já fez sua parte”, os 40% faltantes passam a ser culpa dos outros! Aos alunos que partem para cima de mim, dizendo “O senhor me deu 2,0?!?”, eu respondo “Você tirou 2,0!”. Claro que isso deixa o discente mais irado do que já estava. Ele não admite que a responsabilidade é dele.

Esse discurso de ódio contra a meritocracia, entre as classes sociais e contra a ortodoxia econômica (o liberalismo) uniu um amplo arco ideológico da esquerda nas últimas décadas, sob uma crença ingênua e simplificadora da realidade, de que os esforços para a estabilização da Economia conspiravam contra os interesses da maioria da população, e a solução seria o chamado “desenvolvimentismo”, na verdade uma estratégia keynesiana de aumento de gasto público e excessivo peso do “investimento social”. Claro que isso caiu como música nos ouvidos de uma população pobre, veja-se que o “homo economicus” pretende a maior utilidade com o mínimo de esforço, e é justamente nisso que se baseia os gastos públicos com transferência de renda para a população.

A partir do momento em que isso é questionado pela pessoa esclarecida, surge o ódio, como uma bomba.

A partir da vitimização e do discurso da “igualdade”, tão caro aos setores de esquerda, o militante de esquerda brada “quero que todos tenham tudo!”. Realmente, é um discurso sedutor, especialmente entre os adolescentes, os mais jovens ou os que ainda não abandonaram a emoção em seus raciocínios. Ao ouvir isso, que verte como ouro líquido nos ouvidos mais românticos, a pessoa sente como encarnando John Lennon, pega um violão e sai cantando “Imagine”. Imediatamente após, grita “fascista!” contra quem questione tão nobre ideal, e parte para as agressões aos “contrários”. Sendo o brasileiro um homem do coração, repito, esse ódio se espalhou como um rastilho de pólvora.

Foi assim na época das eleições, e está sendo ainda pior neste começo de Governo Bolsonaro, após perderem. Efetivamente, os partidos de esquerda e seus militantes não recebem nada bem a ideia de democracia. Pensam que é só deles, todos os demais estão errados, porque “não entendem” Marx.

Só que neste momento, a coisa chegou ao nível do insuportável. Depois da catástrofe em Brumadinho, os que antes comemoravam uma facada, passaram a comemorar as mortes das pessoas que teriam votado em Bolsonaro!

Depois da enxurrada fétida de crimes (Mensalão, Petrolão, Pedaladas Fiscais e tantos outros), depois de centenas de mentiras e falsidades, com esse discurso de ódio contra seus conterrâneos, a militância de esquerda está vendo sua credibilidade despencar rápida e volumosamente. Na verdade, já não era sem tempo que a opinião pública deveria ter cobrado essa conta. Essa esquizofrenia, essa negação da realidade, essa contrariedade aos fatos, encampada pela militância de esquerda por uma questão de fanatismo, nada mais é do que a tática de Goebbels: “repita uma mentira mil vezes que ela será uma verdade”. #SQN! Uma avalanche de mentiras continua sendo uma avalanche de mentiras, ainda mais em tempos de internet, em que as informações circulam em tempo real, e um grande número de pessoas as está criticando. A conta das mentiras chegou: é o descrédito absoluto e generalizado da gritaria irreal dos partidos e da militância de esquerda.

O ideal seria que fizessem uma autocrítica profunda, e mudassem essa conduta que tende somente ao acirramento de ânimos, de um lado e de outro. E que se resgatasse, neste país, o “homem cordial” de Sérgio Buarque de Hollanda, de 1936: aquele gentil, amável e famoso no mundo todo pelo seu carisma.

P.S.: TODOS OS DIAS tenho sido bloqueado no Twitter. Sinal de que estou incomodando a militância de esquerda, que fica me denunciado. Isso, para mim, é um selo ISO9001 de qualidade. Obrigado a meus inimigos.

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