No início de marco de 2.020, a vida de meus pais começou a mudar. Não sabia que mudaria tanto. Minha mãe, 90 anos bem vividos, forte, destemida, olhou para mim e para meus irmãos e disse: não se preocupem, vamos conversando pelo celular. Fiquem bem. Já meu pai, mais emotivo, porem igualmente destemido, aos 88 anos, ficou titubeante, com olhar trôpego e vacilante.

Aceitou a determinação do governo do Estado de São Paulo. Afinal, sempre foi um ser humano obediente as leis. Viveu os anos 60 sem medo, entretanto, sempre primou pelo bom senso para definir seus passos. Não esqueçam desta frase que contem “ bom senso”, pois, mais a frente vamos voltar ao tema.

Os dias foram passando, a saudade foi aumentando lado a lado e o convívio social deixou de existir. Mas nem tudo é perda. Meus pais e eu ganhamos a solidão, o silêncio, o medo, o temor, e afinal a saudade deu espaço ao terror.

Pela retina dos olhos dos dois, eles viram este País se modificar. Desde Getúlio Vargas a redemocratização do Brasil, sempre nos protegeram. Asas largas, corações maiores jamais conheci. Eles sempre estiveram ao lado dos filhos, noras, netos, parentes e amigos.
Sempre primaram pela bondade dos atos, representados pelas palavras e atitudes. Porém, ficaram sós. Ficamos ausentes pela imposição de políticos que passaram a determinar o isolamento, impondo o medo a dois idosos e a milhões de pessoas.

Disseram aos quatro ventos e a todas as mídias que evitassem ir aos hospitais. Afinal é perigoso ir a um hospital. Podem se contaminar com um vírus desconhecido e morrer.
A que ponto chegamos. Ouvir de “autoridades” que o local feito para salvar vidas se tornou perigoso para todos nos.

E qual é a melhor solução? Tratamento caseiro, ora! Vídeo Consulta, auto exame, etc, etc, etc.

Mas não apareça em um hospital certo ?? A progressão do terror midiático foi tão avassaladora, que até médicos passaram a recomendar a pacientes que não fossem a hospitais.

Pois bem, quantas são as pessoas que estão a morrer em casa por medo de ir a hospitais?
Quantas foram aconselhadas a não ir a hospitais e já morreram? Porque ninguém fala a respeito?

Quantos foram os diagnósticos equivocados que resultaram na perda de entes queridos, fruto do medo, da barbárie promovida por políticos e pela mídia que insistem em noticiar mortes ocorridas nos hospitais, mas que se negam a informar o número de pessoas recuperadas?

Enfim, volto à minha realidade. Dia 28 de março perdi meu pai. Não teve a chance de ser tratado dentro de um hospital. Vi a vida dele se esvaindo em 12 minutos até a chegada de uma ambulância. E quero deixar bem claro: não foi por COVID-19, foi por parada respiratória proveniente de um choque hemorrágico e miocardiopatia isquêmica. Os paramédicos tentaram ressuscitá-lo por um hora, não conseguiram. Perdi meu pai, meu melhor amigo, meu confidente, meu pilar de vida.

O medo venceu e não me perdoo. Agora não existem outras doenças, só COVID-19. Ninguém tem direito de ter outra doença ou de ser tratado de outra doença, a não ser dessa maldita pandemia. Sendo assim, volto a citar a frase sobre bom senso. Até quando vamos deixar que políticos, autoridades e a mídia nos imponham o terror e o medo, fazendo crer que o isolamento social protege vidas?

Será que o seu bom senso não é igual ou superior ao de um caixa de supermercado, atendente de farmácia, açougue, posto de gasolina, etc que lhe atende quando necessita?
Você não entende os protocolos de segurança que tem que seguir? Não deixe que seus entes queridos morram em função do isolamento. Não os deixem sós. A solidão e a ausência matam mais que este vírus.

De as mãos a quem precisa. Tenha bom senso. Você é a pessoa mais importante para quem precisa de sua atenção, amor, carinho, solidariedade e presença. Tome todas as precauções, mas não deixe seus pais isolados, sozinhos. Afinal, o reverso da moeda, é um sentimento de perda irreparável e de falha, sentimentos que talvez eu não consiga jamais esquecer. Desculpem-me, perdoem-me, por favor.

Paulo Costa é articulista e colaborador do @Vida Destra.

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Max Miguel
Max Miguel
2 anos atrás

Paulo, você nos mostrou o quanto é um bom filho; Parabéns!

Livio Oliveira
2 anos atrás

Parabéns pelo texto Paulo! “O medo venceu e não me perdoo”. Não, você não tem que se culpar. Você fez o melhor que podia.

Paulo R P da Costa
Paulo R P da Costa
Reply to  Livio Oliveira
2 anos atrás

Obrigado amigo. Muito obrigado!

Nunes
Admin
2 anos atrás

Não é fácil escrever sobre isso, pois passei pelo mesmo em 2017. Força e luz

Gogol
2 anos atrás

Meus sentimentos, meu grande amigo! O seu excelente artigo me fez lembrar de uma amiga que me falava que seus filhos, quando crianças, melhoraram rapidamente de suas doenças, porque ela ficava dia e noite ao lado deles, redobrava o amor e o carinho. O pediatra deles ficava encantado. Já é mais do que provado que esse terrorismo irresponsável e diabólico está adoecendo as pessoas. Resta a cada um de nós sair dessa armadilha da mídia podre e de seus mandantes. É a nossa única chance. Um grande abraço!

Maria Aparecida Romo
Maria Aparecida Romo
2 anos atrás

Paulo, fique em paz. Sua família é linda… Eu faço parte do grupo de risco, somos em 3 em casa, tenho outra filha casada, que estamos afastadas ainda, nos falamos só em vídeo. Então o medo tomou conta de mim, tinha receio de ir no quintal, sou de uma igreja, orei muito, meu pastor ora por todos nós, ele faz culto online. Passei a me sentir mais segura. Não abuso, com os cuidados recomendados, vou ao mercado, na farmácia, levo os pets para passear. Tenho amigos que foram contaminados, não precisaram de internação, estão bem, um já voltou a trabalhar.… Read more »

Nia Lucas
Nia Lucas
2 anos atrás

Não te conheço, mas me solidarizo contigo, me emociono com teu relato.
Teu pai te ensinou a obedecer às leis, você honrou o ensinamento de teu pai e tenho certeza que ele se orgulha de ti.
Fica em paz e com Deus, pois Ele é soberano e tem o controle de todas as coisas, teu pai se foi porque Deus o chamou, não por culpa tua.
Abraço.

Neco
Neco
2 anos atrás

É muita coisa errada. Eu não sei qual vai ser o fim disso. Já soube de vários casos assim, mui triste.

Marcio Salgues
2 anos atrás

Paulo, meu caro, imagine que inúmeras versões do seu comovente relato vêm se repetindo silenciosamente pelo país.
Lamentável observar impotente o emprego de um vírus como ferramenta de destruição social.
Meus sentimentos!