Acho estarrecedor que certos veículos de “imprensa” – que nem deveriam ser chamados assim – estejam dizendo que “Biden venceu o debate por pontos”. Não foi, realmente, isso que eu vi!

Aliás, digo mais: não somente aqui, mas também lá, estou dando como certo que essa mesma “imprensa”, simplesmente, filtra tudo por uma lente ideológica e dá uma ótica revisionada dos fatos, além de estar tentando induzir o público, tanto o brasileiro quanto o norte-americano, a acreditar em uma versão, não na realidade.

Para começo de conversa, a impressão geral dos dois: Trump foi, como sempre, ereto e incisivo, rápido nas respostas e nas perguntas. Agressivo, claro, parte para cima do oponente sem piscar. Sente-se bem em confrontos, é a impressão que tenho. Já Biden, evidentemente, é um homem atingido pela idade e, quiçá, por tragédias pessoais. É lento, sua fala é mole, parece que está a se lamentar do tempo perdido. Titubeou, hesitou e fugiu dos assuntos que não lhe favoreciam, ontem.

Então, simplesmente, Trump sapateou no debate, ontem. Não tem essa de “venceu por pontos”, até, ele “jantou” Biden. Só se estiverem falando dos “pontos” que fecham os olhos dessa “imprensa”, costuradas suas pálpebras em seus conceitos ideológicos.

É verdade que o debate de ontem foi, de longe, bem mais urbano que o anterior. Até pelas regras estabelecidas, eis que o microfone de um ficava desligado enquanto o outro falava. Contudo, ao longo do confronto, pareceu-me que a regra não foi perfeitamente cumprida. A mediadora, Kristen Welker, da NBC, por seu turno, foi excelente: pouco apareceu, equilibrou os temas, equilibrou as perguntas e respostas e foi peremptória em “cortar” um ou outro, para estabelecer quem poderia falar.

O primeiro tema foi o COVID-19.

Trump ressaltou, a todo momento, que a doença veio da China, mas apresentou os dados que lhe interessava, claro, destacando que a vacinação está prestes a acontecer. Sem mencionar quais os medicamentos que tomou, falou que teve a doença e se recuperou, em tempo recorde (o que é é verdade!). Ressaltou também que em poucas semanas a vacinação deverá estar disponível, ou quando reperguntado, disse que as vacinas deverão estar disponíveis até o fim do ano.

Biden, por óbvio, começou ressaltando o número de mortos, “fazendo drama”. Acusou Trump de ser “responsável” pelas mortes. Comparou a situação norte-americana com a europeia, sem mencionar a “2ª onda” que está acontecendo no velho continente. E fundou o combate à COVID-19 no uso de máscaras. Iniciando uma estratégia na qual se apoiou ao longo de todo o restante discurso, disse que “tem um plano” (mas não o apresentou) e que “vai implementá-lo”.

O debate sobre esse  foi uma troca de posições completamente diferentes. Enquanto Trump destacava a rapidez com que agiu no começo do ano, Biden o acusava de xenofobia e de lentidão. Mas essa é uma versão de Biden, que procurou ressaltar que a COVID-19 não vai terminar em breve. Por óbvio, interessa a Biden manter o país sob o pânico, chegando a falar que a população está “aprendendo a morrer com isso”, e culpou Trump. Biden quer que todo mundo fique de máscara e manter distanciamento social, em resumo.

Nesse sentido, Trump mostrou sua disposição em reabrir o país e culpou a China, enquanto Biden demonstrou o contrário, de manter o país fechado, em um resumo geral. Aí houve uma “ameaça velada”, eis que o principal obstáculo a Trump no sentido de reabrir as atividades econômicas, e especialmente citando as aulas nos EUA, tem sido Nancy Pelosi, na Câmara norte-americana (que tem maioria democrática). Esta vem, reiteradamente, bloqueando as iniciativas de Trump, entre os deputados.

O segundo tema foi a segurança nacional. A mediadora colocou o ponto da interferência do Irã e da Rússia nas eleições americanas.

Biden reconheceu que Irã, Rússia e China estão tentando interferir na política norte-americana, mas gaguejou e errou palavras enquanto falava. Acusou Rudolph Giuliani (que agora é advogado de Trump) de ter recebido “informações” da Rússia. Acusou Trump de ser “tolerante” com a Rússia.

Trump falou sobre o dinheiro que Biden teria recebido da Rússia, e respondeu que foi bastante duro com a Rússia – e isso é verdade, ele tem se colocado em oposição a Putin em diversas situações. Nesse ponto, Trump citou os e-mails trocados entre Biden e oficiais do governo russo, acusando-o de ter recebido dinheiro russo.

No debate que se seguiu, Biden apontou a não-declaração de imposto de renda por parte de Trump (e repetiu isso várias vezes), enquanto Trump este apontou os e-mails que foram vazados na imprensa, norte-americana e mundial, em que há menções a pagamentos à família de Biden (na ordem de US$ 10 milhões) partindo da Rússia e da Ucrânia. Aliás, a mediadora apontou as dúvidas sobre o trabalho que o filho de Biden fez na Ucrânia e na China. Nesse momento, Biden correu a negar “irregularidades”, reconhecendo, contudo, que seu filho sofreu impeachment por conta desses episódios. O caso está ligado às fotos veiculadas na imprensa, a respeito das ligações entre o filho de Biden e menores de idade. Biden procurou, a dado ponto, retirar o foco de sua família, porque estava na cordas, e quis falar sobre as famílias norte-americanas, e Trump acusou-o de “conversa do política”, mostrando que Biden estava fugindo do assunto. E estava mesmo.

Na sequência, aconteceu um dos pontos mais pitorescos do debate. Biden acusou Trump de ser “amigo” do ditador norte-coreano, e este respondeu que havia uma guerra nuclear iminente. A fala de Trump foi hilária:

“Eu criei um relacionamento. Ele é um cara diferentão, mas o relacionamento foi bom. Talvez ele pense a mesma coisa de mim.”

Os fatos são que, durante o governo Obama, a Coreia do Norte fez 4 testes nucleares e de mísseis. No governo Trump, este fechou um acordo de paz com a Coreia do Norte, em 2018, uma façanha na política internacional, e não houve testes nucleares na Coreia do Norte nesse período. Não houve relacionamento entre Kim Jong-Un e Obama, destaque-se ainda, que “negociava” com a China, mas nunca diretamente com o ditador norte-coreano.

O tema a seguir foi a saúde pública. Esse foi o ponto em que o debate mais se arrastou, chato. De um lado, Trump atacava o Obama Care, e Biden o defendia, dizendo que iria transformá-lo no “Biden Care”.

No debate que se seguiu sobre o tema, Biden negou que o plano “Biden Care” seria algo socialista, mas disse que estava sendo apoiado pelos sindicatos trabalhistas.

Trump bateu forte nessa tecla: acusou Biden de querer socializar a medicina, e que Nancy Pelosi era ainda mais “progressista” do que o vice-presidente de Obama. Puxou o nome de Bernie Sanders, e Biden correu a retirar a figura do democrata socialista da discussão.

A mediadora mencionou o desemprego, perguntando a Trump porque não aprovou nenhuma lei para debelar o problema. Trump acusou Nancy Pelosi de obstruir as tentativas de negociar essa lei. A mediadora voltou a pergunta para Biden, para que ele movimentasse a lei na Câmara. Biden disse que tentou, e que a Câmara tinha outro plano, próprio – dos democratas, e que este foi bloqueado no senado republicano. O que se evidenciou aí foi a cisão que há entre câmara e senado.

Kristen Walker questionou Biden sobre a elevação do salário mínimo, e esse tergiversou, falando sobre ajuda a micro e pequenas empresas. Um absurdo, do ponto de vista econômico. Trump bateu nesse ponto: quanto se aumenta o salário mínimo, acaba havendo demissões – e isso é o que está na Teoria (e na prática) Econômica.

Aí veio o tema imigração. Nesse ponto, o debate acendeu, sobre o ponto das crianças que foram separadas dos país, na fronteira norte-americanas. Trump alegou que muitas dessas crianças vieram sozinhas para os EUA, Biden repisou que vieram com os pais. O fato é que há cerca de 500 crianças sem os pais, em instituições norte-americanas.

De outro lado, também é verdade que o governo Obama não conseguiu, em 8 anos, fazer um plano de imigração, e esse foi um grande problema no período. Trump acusou que o governo Obama “prendia e soltava”, e que as “gaiolas” nos postos de fronteira foram construídas pelo governo Obama. Biden colocou que os EUA teriam que conceder “asilo” para os imigrantes, Trump rebateu dizendo que Biden não conhecia a lei sobre imigração.

Levantaram o tema racismo. Outra polêmica.

Biden disse que a filha é assistente social. O problema é a polícia versus cidadãos afro, colocando entre linhas que a polícia é extremamente rigorosa nesses casos. Falou de inclusão, saúde, acesso a escolas, crédito, etc., direcionados a cidadãos afrodescendentes.

Trump apontou que Biden esteve no governo durante 47 anos, e que muito pouco fez – na verdade, que as leis prisionais e criminais aprovadas no governo Obama encarceraram dezenas de milhares de jovens afrodescendentes. E disse que desde Abraham Lincoln, ninguém teria feito mais pela comunidade negra nos EUA.

Biden tentou usar essa fala, dizendo que Trump era um “Lincoln racista”, dizendo que este teria “colocado gasolina na fogueira racista”.

A mediador inseriu no debate o “discurso de ódio”, e o “Black Lives Matter”.

Trump ressaltou os pontos em que sua administração fez pelos afrodescendentes, como crédito e  financiamento a universidades negras.

Biden falou, em várias oportunidades, que as drogas deveriam ser descriminalizadas, que não poderia haver encarceramento de usuários, mas tratamento deles, e reconheceu que as leis do período Obama foram um equívoco, nesse sentido. E como fez várias vezes, falou que trataria do tema no futuro, na presidência.

Trump falou que Biden teve 8 anos para fazer alguma coisa, e não fez, e Biden acusou o Congresso de ser republicano, por isso não tinha feito nada. Ficou novamente no conflito e obstruções parlamentares.

O tema a seguir foi mudanças climáticas.

Trump disse que não iria sacrificar milhares de empregos por conta do Acordo de Paris, bem como que no seu governo as emissões de carbono diminuíram, enquanto que na China, Rússia e Índia, isso não aconteceu. Trump acusou que Cortez (autor do plano energético de Biden) não tem o mínimo conhecimento sobre questões ambientais, e que o plano era absurdo, que retiraria US$ 100 trilhões das famílias norte-americanas. Que havia problemas com a energia eólica, que era cara, e que a energia solar não tinha nível de produção (potência) tal que alimente a recuperação industrial norte-americana.

Biden se apoiou no discurso ecológico, falando da irreversibilidade das condições climáticas em 8 anos. Falou de fontes de energia limpas, como solar e eólica. Defendeu o plano ambiental e energético, alegando que era defendido inclusive pelos sindicatos. Houve bate-boca sobre o “fracking” (gás de xisto), que Trump defende, e que Biden disse agora defender também, mas Trump disse ter uma gravação do vice-presidente dizendo ser contra. Biden quer chegar a emissões de carbono zero em 2025 (considero isso irrealizável), mas no fim do debate falou em 2035. Biden também ressaltou que pretende colocar os EUA de volta ao Acordo de Paris.

Trump acusou Biden de querer acabar com a indústria do petróleo. Biden disse que teria que haver uma “transição”, mas deixou claro que pretende mesmo deixar de usar combustíveis fósseis.

A última pergunta da mediadora: Imagine o dia da posse. O que diria aos americanos que não votaram no senhor?

Trump respondeu é preciso um país bem sucedido, nos níveis anteriores à praga chinesa, que é necessário reconstruir o país, retomando os índices existentes econômicos antes da pandemia; que quer unir as pessoas através do sucesso, destacando a elevação do nível de ensino. Acusou Biden de querer elevar impostos, e que causaria uma depressão profunda aos EUA.

Biden respondeu que seria um presidente americano, que representa a todos, com ciência em vez de fantasia, esperança em vez de medo. Que faria a economia crescer e combateria o racismo estrutural, e que adotaria fontes de energia renováveis, gerando empregos com isso.

E nesse ponto terminou o debate.

O que ficou claro para mim, e creio que para muitos outros assistentes, é que Biden adota o discurso “progressista”, do “politicamente correto”, da “energia limpa”, do “combate ao racismo estrutural”. Mas durante os 8 anos que ficou como vie-presidente do governo Obama, pouco ou nada fez por esses temas, sempre dizendo que o faria se chegasse a presidência.

Do outro lado, Trump é aquele mesmo, agressivo, politicamente incorreto, mas que entregou resultados sólidos, consistentes, durante seu governo, especialmente na área de política externa e na Economia.

Foi, realmente, um debate sobre duas visões opostas de governo: uma prática, dura, nua e crua (Trump), com uma visão liberal e direta, e outra onírica, de um senhorzinho (Biden) que parece querer ter um violão para cantar “kumbayah” com um grupo de escoteiros ao redor de uma idílica fonte de calor de energia renovável (fogueira não pode!).

Ficou evidente, contudo, que Biden “deu recibo” dos e-mails e demais informações que foram levantadas do computador de seu filho, e quiçá de computador seu, que ora está sob a mira do FBI, inclusive. Fugiu do tema o quanto pode. Como é quase uma tradição norte-americana, este ano temos uma “notícia de outubro” bastante bombástica e que pode arrasar com a candidatura do democrata nesta reta final.

Com o agravante que já houve efeitos disso. A diferença que as “agências de pesquisa” projetam entre um e outro já diminuíram, e mais: na verdade, Trump está com um desempenho, agora, um tanto superior a 2016. E todos sabemos o que aconteceu na última eleição.

A ver o dia 3 de novembro!

Fábio Talhari, para Vida Destra, 23/10/2.020.

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Fábio Talhari
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Laerte A. Ferraz
1 mês atrás

Excelente análise, cara amigo Fábio. Torcendo pela vitória de Trump, em favor dos EUA e também do Brasil, pois já sabemos o que Biden pensa sobre nós.

Maria
Maria
1 mês atrás

Bom dia Doutor Fábio!!!! Excelente resumo, mais uma vez o senhor desenhando os fatos como eles realmente são. Na minha humilde opinião, ficou bem evidente a vitória certa de Donald Trump,Biben não demonstra coerência e suas propostas são fantasiosas demais para uma pós PLANDEMIA.

Joel
Joel
1 mês atrás

Muito boa análise. Parabéns

Nunes
Admin
1 mês atrás

Parabéns pelo excelente artigo!

Nunes
Admin
Reply to  Nunes
1 mês atrás

agora é torcer e orar para a vitória do Trump

Sander Souza
Sander Souza
1 mês atrás

Excelente artigo, Fábio!
Esclarecedor, e ótimo para auxiliar pessoas como eu, que não puderam acompanhar o debate, a compreender o jogo político norte-americano!
Lido e compartilhado!

Luiz Antonio
1 mês atrás

No esclarecedor art. de s:o debate entre TrumpxBiden,sem sombra de dúvida,foi uma luta de box em q só havia uma lutador.Trump aplicou diretos,uppercut, q Biden foi a lona em knock down. Balbuciava alguma coisa, após 8 segundos, q um juiz esquerdopata gritava, empatou. No final, só houve um vencedor Trump, q o Brasil torce em 3/11.

Mauro Tagliari
Mauro Tagliari
1 mês atrás

Parabéns primo. Forte abraço.

FABIO PAGGIARO
30 dias atrás

Excelente análise. Desnuda as versões mentirosas da imprensa que, em nivel e coordenação mundial, quer fazer crer que Biden já ganhou. Fizeram isso na eleição anterior. Hillary dormiu “presidenta” e acordou derrotada. Essa eleição pode definir o destino do mundo. Se Trump perder, as portas para o domínio comunista serão escancaradas e poderemos ter o início de uma nova “Idade das Trevas”.